“É labrador?”

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“É labrador?”

Era a primeira coisa que todo mundo perguntava.

Nelson sempre tinha suscitado suspeição.

Pelos padrões da raça, ele passava ali, ó. Na régua.

Mirrado, magrelo. Crânio e focinho afinados.

Um labrador negro e esbelto.

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Na Física de Albert Einsten, e mesmo antes dele, se tivermos a disposição de escavar a literatura e o misticismo, persiste a ideia da ilusão do tempo.

Grosso modo, é como se fosse um desdobramento da Teoria da Relatividade; um conceito que sugere a simultaneidade do presente, passado e futuro é, por consequência, absolutamente antagônica à noção de livre arbítrio.

Ou seja: de acordo com essa ideia, tudo acontece, tudo acontecerá, tudo já está acontecido. Ab aeternum.

É por isso que, às vezes, gosto de pensar nela quando a morte me espreita e me assombra.

Se o tempo não é linear como nossa consciência sugere, se cada momento é um instante congelado para sempre – como o fotograma de uma película –, isso talvez signifique que, dependendo de onde você olhe – digamos, de uma perspectiva ou dimensão muito especial, superior, você poderá enxergar o filme todo, cada quadro. Nesse sentido, todos ainda estamos nascendo, vivendo, perecendo. Eternamente.

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Ah, Nelson. Não é justo.

Você, que tanto poder teve sobre minha vida. E, agora, eu… que tanto poder tive sobre sua morte.

Você, que acompanhou todas as nossas tristezas desde 2010.

Perdemos duas gestações.

Perdemos uma avó.

Perdemos um pai.

E agora perdemos você.

Hoje faz uma semana.

Mas quando você dava seu último respiro na mesa da clínica é como se fosse agora, Nelson.

Há apenas 60 minutos, Meg chorava ininterruptamente. Ao deixamos o apartamento, balbuciou no carro algo como “você não voltaria mais.”

E meu silêncio seguia pusilânime, porque eu era incapaz de dizer qualquer palavra de conforto a ela e a você.

Também, seria inútil: nenhuma frase se completaria.

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Como os seus olhos falavam, Nelson.

Levou meses para deixar a gente saber que sabia latir.

Olhar mais terno, mais carinhoso, não haverá. Quem sabe sabe.

Alguns duvidarão.

Normal. Qualquer um que perde um cachorro dirá que não houve cão como aquele.

No que é verdade: Nelson não tinha nada de diferente de nenhum cão que um dia você amou.

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Nelson era gente boa. Para se ter uma ideia: você pisava o rabo dele sem querer e ele é quem pedia desculpas porque estava à sua frente. Juro que era assim.

Depois de raspar a tina, jamais deixou de voltar correndinho para agradecer qualquer comidinha diferente que aparecesse na tigela. Sua gratidão era infalível: a gente já o esperava, com o rabo balançante, o corpo rebolante, a cabeça em busca dos afagos de retribuição. Insisto: toda vez.

Já tive outros cães. Nunca vi isso.

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Nos últimos meses, doente, quando vomitava, ficava meio que envergonhado. Não me encarava. De jeito nenhum.

Alquebrado, com artrite ou dores que sequer conseguimos imaginar, seu esforço para subir ou descer dos lugares era de partir o coração.

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Feira de animais na Av. Pedro II.

Estavam ele e sua irmã. Meg o escolheu.

Era o mais abatido. Hoje fico pensando na jornada que o levou até ali, da sua mãe e seus irmãos até aquela gaiola, na Av. Pedro II.

No carro, a caminho de casa, fez xixi no colo de Meg.

Em casa, descobrimos – pelo menos foi o que acreditamos na ocasião – por que estava tão borocoxô: carrapatos mil. Incrível não termos percebido.

Sentamos Nelson no colo. No chão, um copo com álcool; na mão, a pinça ágil. Passamos a tarde catando carrapatos. Nelson dormiu em nosso colo pela primeira vez.

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Primeiras semanas na nova casa.

Ainda pequenino, era incapaz de subir ou descer os degraus da escada que dá acesso ao quintal. Dispus uns tijolos pra ajudá-lo.

Uma vez, de cócoras, colhendo cocô, fui surpreendido por um focinho gelado no meu cofrinho.

Finalmente nos conhecíamos intimamente. Quer dizer, à moda dos cachorros.

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Várias companhias nesses oito anos. Um buldogue inglês bonachão, Huxley. A Lhasa Pituca. Uma vira-lata endiabrada, Mica. As férias em Lavras, com o boxer Bobo, grande camarada. E a melhor e derradeira companhia, que permanece conosco, Millôr Fernandes – fox paulistinha, pequeno canalha dominador que comunga conosco o aprendizado de uma dor difícil.

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Os anos se passaram. Quando os amigos se afastaram, por vicissitudes da vida, Nelson ficou aqui. Ao meu lado.

Na volta pra casa de madrugada.

Enchendo o saco pra passear na ressaca de domingo.

Nos jogos do Galo (o último que você viu nós ganhamos, Nelson, de virada sobre o Atlético Paranaense).

Sempre aqui, com sua cabecinha sobre minha perna, a respiração profunda, intercalada por cafunés.

Sempre aqui.

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A história da nossa casa é a história do Nelson.

Começou quando Meg engravidou. Decidimos comprar um apartamento.

Fazia apenas dois meses que mudáramos para o Buritis.

E o quintal alimentava devaneios.

Pensei: vou retomar um sonho de infância.

Quando tinha dez anos, e morava no Serro, tive um vira-lata. Ludo.

Ele adoeceu e o levaram para morrer, longe de mim. Fiquei sem ir à escola por três dias.

Já em BH, várias tentativas frustradas. Todas pelos motivos razoáveis de sempre: cachorro em apartamento, etc., etc.

Mas agora eu podia cogitar novamente. E, se Meg não objetasse, nada me impediria.

Tanto que, depois de uma cervejada num sábado de agosto de 2010, acordei zonzo de tanta ressaca, porém estranhamente decidido.

Os amigos, sabedores de véspera das minhas intenções, tentavam em vão me dissuadir: é trabalheira demais, vai crescer muito, etc.

Mas eu estava resoluto, talvez ainda um pouco bêbado e então disse a Meg: vamos buscar o nosso cachorro.

Agradeço até hoje por ela ter concordado com aquela loucura, aceitando na sua sabedoria feminina quando um homem acorda decidido a fazer besteira.

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Pensa num lago, represa, riacho, piscina.

Nelson.

Não podia ver água. Não precisava nem mandar. Era do tipo que se jogava.

Bom nadador. Confiante, firme.

Um sonho pude realizar. Levar Nelson e Millôr à praia. Foi em outubro. Foram à Cumuru, Corumbau, Alcobaça.

Millor adorava disparar pela areia. Já o Almirante se lançava ao mar.

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Nelson uma vez me disse – ele dizia as coisas respirando gravemente em meu colo – Nelson me disse que, por mais besteira que a gente faça ou que façam com a gente, não valia a pena alimentar mágoa.

Mágoa nenhuma.

“Ou você esquece ou passa por cima“– falou, lambendo o próprio focinho. E mais: se o vivente disser “Vão Passear?”, tudo se perdoa, tudo deve ser perdoado.

Estamos todos a passeio.”

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Quando Meg e eu completamos dez anos de esperança neste janeiro de 2018, os efeitos da leishmaniose – detectada em fins de 2016 – apareceram de forma avassaladora e nos pegou desprevenidos. Em nossa ingenuidade, julgamos que a situação estava sob controle com o remédio ministrado em abril de 17.

Começou com uma semana de artrose. Na sequência, epistaxe.

Nelson sangrou ininterruptamente por cinco dias seguidos.

Janeiro terrível, esse de 2018.

O pior: daí por diante, não houve folga.

Foram muitas, muitas caixas de remédios. Internações, semana sim e semana não. Vômitos frequentes; problemas com os rins, problemas com o fígado, problemas com as articulações, problemas com os olhos. Tudo dava pau: focinho, caspa, perda de pelo, anemia, desidratação.

Pensa numa condição qualquer. Provável que Nelson a tivesse.

Nos meus delírios, eu cogitava: como o Nelson teria pego leishmaniose? Nunca saberei ao certo. Mas eu me culpava, em segredo, porque me conheço; certamente teria sido por minha negligência em algum momento. Por outro lado, em uma espécie de ilusão, imaginava que talvez eu já o comprara com leishmaniose; que, desde o primeiro momento, ele estava condenado e nós é que não tínhamos como o saber; como ele que era um bicho especial, resistiu bravamente o quanto pôde, por quase oito anos.

Bem, agora nada importa mais. Tudo são fantasias e conjecturas sem valor.

Nelson está morto.

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Era a primeira coisa que todo mundo perguntava.

“É labrador?”

Não, senhora.

Misturado.

É o irmão que jamais tive. É o filho que nunca terei.

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