No rolê, mano

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Em 7 de setembro, tudo o que fiz de útil foi trocar o pneu do carro. Esvaziara, estacionado há dias. Como, eu não sei. Não houve flagrante de incidentes, pregos ou facadas. O estepe foi colocado e eu reconquistei a independência rodoviária.

No sábado, de manhãzinha, após receber documentos via Correio de que necessito para fechar um contrato de aluguel, parti para a borracharia. Comprei dois pneus meia-vida, os da frente sofriam de calvície precoce; não sei se fiz bom negócio, o fato é que me deixei morrer na lábia do borracheiro.

Perto dali, passei em um mercado para comprar pequenas provisões. De súbito percebi uma feirinha, a ocupar duas ruas próximas à Fradique Coutinho, na Vila Madalena. Fui. Percorri as tendas, e era mais do que hortifruti, legumes, folhas, que tais. Havia decerto algum contrabando, no sentido de artigos sem imposto, como badulaques diversos, ferramentas, objetos domésticos. Mas a maioria do comércio era de víveres, incluindo feijões, queijos, embutidos, carnes e peixes, sem falar nos comes e bebes.

Decidi entender um pouco o que é ser paulistano, e, após avaliar criteriosamente minhas opções, pedi uma garapa com limão numa barraca e um pastel de queijo e bacon noutra. A garapa estava deliciosa; o pastel, bom, mas temo que este tenha sido a causa de efeitos colaterais horas depois. Anos atrás, tive uma experiência traumática com a comida de feirantes em São Paulo. Enquanto não desenvolver toda uma bateria de anticorpos nativos capazes de falar coisas como “meu, esse bagulho que desceu da garganta agora é louco”, é evidente que preciso tomar mais cuidados.

Segui a pé da feirinha para a Teodório Sampaio, repleta de lojas de móveis. Fazia calor. Olhei alguma coisa, tendo em vista a casa que, se tudo der certo, alugaremos, e continuei para outra feira, a da Praça Benedito Calixto, point dos antiquários, dos descolados, dos coxas e dos alternativos – tudo junto e misturado.

Eu já a visitara. Passeei ali um pouco, comprei um vestido para a senhora, percorri os estandes de miscelâneas antigas com pouco interesse até que me deparei com uma banda que se apresentava ao vivo. Uma mulher no vocal, três caras nos instrumentos. Tipo banda indie.

Defronte, encontrei uma barraca de comidas do Pará que oferecia suco de graviola. Meu fraco: sucumbi em oito reais para matar o gosto de saudade e enfrentar o calor que fazia. Na mesma hora, a dona da banda emendou Have You Ever Seen The Rain, e eu, macho feito e crescido, bebendo meu suquinho de graviola, comecei a bambear, não sei por quê. Os olhos aguaram, sem nenhuma razão, e quis não ouvir, sair dali da multidão meio depressinha.

Refeito, andei os vários quarteirões até meu carro. Deixei as compras no quarto que alugo e fui para o Carrefour mais próximo. Não para mais compras, só para bater perna e conhecer preços e produtos que podem me servir mais tarde. Quando não se conhece ninguém em uma nova cidade, você precisa inventar coisas para fazer.

Do hipermercado fui ao Leroy Merlin. Do Meroy ao shopping Villas-Boas (este, uma perda de tempo, aliás). Eram 19 horas, e decidi ver como a rua da casa que estamos prestes a alugar parecia numa noite de sábado.

Um pouco escura, excessivamente tranquila, residencial. Ok. De lá, decidi me conceder um agrado: comer no chinês que eu já havia visto perto dali, em visitas anteriores.

Era um restaurante modesto, provavelmente já haveria visto dias melhores. No sábado à noite, eu era o único cliente.

Pedi meio Yakissoba – mas daria para quatro, tranquilamente. Foi demais para a fome pouca. Pedi para embalar o resto para viagem. Paguei a conta e aí chegou um biscoitinho da sorte.

Não comi o biscoito, mas o abri com curiosidade. Podia ser ali o destino me dando uma dica do que estamos fazendo, se estamos sendo sábios em trocar a vida relativamente acomodada de Belo Horizonte pelas incertezas de São Paulo.

A mensagem do biscoito: “Inundações são passageiras. Períodos extraordinários também”.

Fiquei um minuto a refletir. Bolas, o que quer dizer isso?

Só faltou estar escrito “É verdade esse bilete”.

Fiquei um tanto quanto frustrado, porque era ambíguo, em mais um sentido. Lembrei da forma meio anedótica com que o pensamento chinês é visto pela ótica ocidental, satirizada em muito no cinema e na cultural industry.

Reli o biscoito da sorte. “Inundações são passageiras. Períodos Extraordinários também”. No que meu deu vontade de acrescentar: “Exatamente. O normal é a normalidade”.

Com a barriga cheia e satisfeito por ter sido capaz de dar uma contribuição tão brilhante à milenar sabedoria chinesa, fui para a casa e dormi.

 

PS: Meg, no verso da mensagem vieram os números 01-17-20-21-43-59. Você costuma jogar na mega. Vai que.

 

 

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