O que que vou dizer lá em casa

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A vista

Existe uma piada interna entre minha mulher e eu. Baseada em fatos. Toda vez que circulo a pé por uma cidade, toda vez – nas oportunidades que tivemos em países europeus, sul-americanos, ou mesmo em Belo Horizonte, passeando no bairro com nossos cachorros – sou, às vezes mais, outras menos, chamado à consulta pelos transeuntes.

Onde é rua tal? Onde fica o supermercado X? Como faço para chegar à rua Y?

Acho graça, porque, mesmo no estrangeiro, e com Meg ao meu lado, invariavelmente vem perguntar a mim, não a ela. Tal é a constância que costumo dizer que isso só pode significar uma coisa: é o destino me mostrando que eu deveria trabalhar no guichê de informações da rodoviária, vocação cujo chamado insisto em prescindir.

Primeira noite em São Paulo. Aluguei um quarto na Vila Madalena, perto da agência onde começo uma nova etapa profissional. Vim de carro, cheguei às 17 horas. Decidi perambular para reconhecimento do terreno.

Estou parado à calçada, consultando o mapa no celular. Um carro com duas mulheres para à minha frente e elas me perguntam onde fica a Rua Girassol. “Desculpe, não sou daqui. Acabei de chegar”. Elas agradecem e permanecem no mesmo lugar, esperando o sinal abrir. Volto ao mapa do celular e vejo que a rua é a do próximo cruzamento. Corro ao carro e digo o que descobri. O sinal abre, e elas partem sem perceber que eu sorrio.

Faz calor surpreendente, acima de 33 graus, mas a noite é fresca, enseja talvez leve agasalho. O quarto onde estou fica no terceiro andar de uma casa na Rua Laboriosa, onde, dizem, reside o João Gordo. Há uma varanda privativa, com uma bela vista da região. Na noite da última quarta-feira, percebi uma iluminação difusa ao longe, que julguei ser o Pacaembu. Estava certo: o Santos jogava pela Libertadores.

As pessoas com quem tive contato, nas ruas, nos restaurantes, bares e serviços públicos, foram solícitas e amáveis, desfazendo a imagem de uma experiência anterior, de alguns anos. Pra gente ver que não é São Paulo: o mundo é que é cinza, tudo depende.

No momento, estamos envolvidos na burocracia de alugar um sobradinho de vila no Alto da Lapa, a 4 Km do trabalho. Não tão longe que possa ir de carro, nem tão perto que possa ir a pé. A se estudar.

Conheci parte da equipe que vou trabalhar na sexta-feira. Galerinha jovem, bem pensante. Tive a melhor impressão.

Tal qual um assunto que preciso confessar, para a vergonha de nós, mineiros.

Dia 28/8, quando cheguei, consegui percorrer os cerca de 590 Km BH-SP com apenas um tanque. Descendo a Av. Pompéia, parei num posto. Por completar, ganhei três pequenos pães-de-queijo.

Reclamei meu prêmio e eis o inesperado: num posto de combustíveis em São Paulo, foi o melhor pão-de-queijo que comi – como nunca comera em nossa terra.

Parecia haver algum toque de sabedoria na crosta, repleto de pontos tostados por algum sal distinto ou outro tipo de queijo a realçar uma personalidade diferente na superfície. Muito, muito saboroso, cravando em mim o desejo de, em mais de um sentido, voltar a abastecer lá.

Quando perguntam a um belorizontino onde é que se come o melhor pão-de-queijo da cidade, não há consenso. Nunca houve. Mas como é que vou explicar pra moçada de BH que em um posto de gasolina em SP tem o pão-de-queijo mais gostoso que já provei? O que que (pra ser honesto, tem que ter dois “que”, é assim que a gente fala) vou dizer lá em casa?

Não sei. Talvez em São Paulo tudo seja em outro nível, ainda mais pra gente que vem da roça. Como sou meio agnóstico, meio calabresa, rogar não custa: Deus abençoe.

2 comentários em “O que que vou dizer lá em casa”

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