Ani adversário

Diz a Certidão: Rubens Chácara Miguez, 29 de julho de 1975.

Só que não me sinto com 43 anos. Tem algo errado. Errado. Alguém na administração celestial ou demoníaca deveria verificar os arquivos. Alguém deve ter cometido um equívoco.

Eu não deveria me sentir com 43 anos.

Porque eu me sinto com oito anos incompletos. Como quando nos mudamos de Belo Horizonte para o Serro. Meus pais eram funcionários do BB e a primeira pergunta que fiz a eles era se lá tinha televisão, porque eu tinha medo de ter que ficar sem o amigo que eu tinha;

Eu me sinto como quem tinha dez anos num dos grandes aniversários que minha mãe fazia e reunia um monte de gente e eu ganhava montes e montes de presentes, tudo coisa bacana; quando aí, uma senhora bem pobrinha, mãe de um menor aprendiz do BB, me entregou um pacotinho com embrulho simplezinho e lá dentro havia um sabonete desses que a gente compra no supermercado; e eu agradeci mas continuei dentro do quarto e a festa então começou a não ter mais a mesma graça e tudo ficou meio doendo a partir dali porque esse sabonete tem sido uma espécie de presente que dura até hoje;

Eu me sinto como quem tinha quinze anos, em férias de verão no litoral do sul da Bahia, quando desistia de fingir que tava gostando das músicas de axé, do trio elétrico e de tudo o mais, e me afastava do agito procurando um lugar para me sentar sozinho pra ver o céu noturno e o mar até que um idiota se aproximava e perguntava se eu queria brincar com meu pauzinho e assustado eu voltava para multidão em busca de segurança;

Eu me sinto como quem tinha dezessete, sem a menor ideia do que fazer da vida e de uma profissão, sem orientação nenhuma de ninguém; quem devia dar opinião não dava, quem dava eu não tava a fim, e eu ia meio ao sabor dos ventos porque não sei fazer nada a não ser ler e escrever e ninguém vai me pagar para fazer isso, e o sentimento de seguir à deriva eu tenho de medo de me acompanhar até depois da morte;

Eu me sinto como quem tem vinte e poucos anos, sem lugar em casa, sem lugar no mundo, inadequado em relação ao que faço, à cidade que moro e com o trabalho que levo, sem muito jeito para me relacionar com as pessoas, sem conseguir revelar para as mocinhas por quem eu me apaixonava que, olha, eu entendo sua dores e dúvidas, não sou esse retardado que você julga conhecer;

Eu me sinto como quem tinha trinta anos, já com alguma leitura na bagagem e ciente de que jamais serei o escritor com o talento dos gênios que eu admirava;

Eu me sinto como se tivesse acabado de conhecer a minha mulher e não como se estivéssemos juntos há dez anos, porque, agora como então, eu não posso dizer a ela para onde vamos porque não faço menor ideia;

Eu me sinto como quem acaba de fazer quarenta, com cada vez menos ilusões e mais fios brancos, mas que porém contudo entretanto continuo meio esperando que o Infinito – que, de um jeito ou de outro, pareceu me proteger até agora – me dê uma luz e me faça enxergar e colocar em prática meu propósito nessa vida curta e sem sentido.

Em meus delírios mais íntimos, nenhuma máscara minha funciona: todas as pessoas que me olham são capazes de  enxergar como realmente sou. Não um senhor de 43 anos, não um profissional realizado, não um homem que sabe o que está fazendo. E mais algo do gênero: “Ei! Ali não é aquele menino que acha que é adulto mas não engana a ninguém?”

O próprio. Lá vai ele fazer quarenta e três.

 

 

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