Escapismos

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Até que ponto – Deus, mal começo e já se figura inevitável a digressão. Com algum tempo no curso de Comunicação Social, percebi que o uso frequente que os colegas faziam da expressão “Até que ponto” deixava as perguntas mais inteligentes. Ao menos, é o que me parecia, pelos meneios e sorrisos de aprovação dos professores de humanas sempre que alguém sacava um “Até que ponto aquilo é influenciado por isto ou isto é apenas o significante que representa semanticamente a terceiridade intrínseca de aquilo?”, num daqueles debates longuíssimos cujo único destino era sempre o lugar nenhum, embora ao final todos se sentissem muito sabidos e bem pensantes. Tomei birra de Até Que Ponto (AQP), e no íntimo jurei jamais empregá-lo para esse fim, mas o tempo passa e eis-me aqui descumprindo promessas de um sujeito que, embora mais jovem, se parece muito comigo, mas não sou eu.

Aliás, engraçado essa coisa de promessa, de certezas peremptórias. Há pouco mesmo, estive em Nova York. Foi minha primeira vez em solo americano, e eu tinha prometido que, uma vez lá, jamais me dignaria a comer em um McDonalds, por razões de nunca achei graça. De mais a mais, há tanta comida boa e diferente que uma viagem ao exterior se nos apresenta. Mas, olha lá: na hora do aperto, extenuados após 24 horas de viagem, qual o lugar mais rápido, em conta e perto do nosso apartamento no Harlem? Língua paga com um hamburgão do McDonalds – a primeiríssima experiência gastronômica nos EUA. Foi simbólico mas não foi gostoso, nem saudável nem saudoso.

Mas eu dizia. Quer dizer, dizia nada, na verdade queria era perguntar algo sobre como utilizamos nosso tempo, digamos, livre, e as implicações psicológicas decorrentes. Até que ponto o que pode ser considerado como escapismo deixa de ser lazer para se transformar em sentimento de culpa? Indago porque o escapismo me parece um fenômeno muito comum, pelo menos aqui em casa, e, por observação e experiência, deve ser que nem na casa de muitas outras gentes.

Alguém pontuaria talvez que a coisa passa pela noção de merecimento. Você não se sentiria culpado se se julgasse merecedor. Você trabalhou duro, fez o dever de casa, cumpriu suas obrigações consigo e para com os seus e, ao fim do dia, ora essa, você merece uma distração. Ou várias: talvez nunca tenha havido tantas, tão facilmente disponíveis, como hoje.

A internet e suas manifestações em múltiplas telas é provavelmente o que você pensaria em primeiro lugar, mas obviamente a coisa não para aqui. Futebol. Música. Animais de estimação. Games. Aplicativos. Seriados. Jardinagem. Academia. Baralho. Palavras Cruzadas. Sudoku. Tricô. Missa. Etc. Etc.

Por exemplo. Sempre me senti menos à vontade entre pessoas do que entre leituras. AQP esse hábito é um hobby genuíno ou apenas um lugar seguro para a falta de traquejo social? A tal da realidade é tão dura assim mesmo pra gente enxergar o escapismo como uma necessidade legítima?

E, por falar em legitimidade, o que dizer dos vícios, das drogas lícitas e ilícitas? Numa perspectiva histórica, o que pode e o que é aceito e o que é condenável são meras convenções sociais localizadas no tempo e no espaço. O veredicto – pena ou absolvição – pode ser externo, mas e a desarrumação íntima do sujeito? Quem sabe que vazios ou demônios devoram por dentro os ansiosos, os depressivos, os deslocados? Quem há de julgar? Prefiro não.

O que posso dizer, por experiência própria, é que a percepção do escapismo como culpa advém da inclinação pessoal de entendê-lo como meio de protelação. Protelação de quê, exatamente, não sei. Talvez de que eu deveria ser mais bem-sucedido. De que não sou quem um dia eu pensei que poderia ser. De que eu deveria ser feliz trabalhando. De que a velhice saudável para mim e para minha mulher estará em risco se eu não fizer nada nessa quadra da vida. Ou de que eu deveria ser menos egoísta e fazer alguma coisa a mais pelas pessoas que me conhecem e gostam de mim, e mais ainda pelos semelhantes que não tiveram as oportunidades que eu tive para estar aqui digressando de barriga cheia.

Mas, não. Ao invés de reformar a casa, que está precisando, vamos economizar para viajar uma vez mais. Ao invés de encarar o país e os terríveis presságios que anuncia, vamos fugir desse lugar, baby – já estamos longe no estrangeiro em meus devaneios e fantasias. Ao invés de ter uma palavra de ternura com minha mãe, meu pai, minhas irmãs, deixa eu só terminar de assistir a mais esse episódio. Ao invés de sair e cultivar amizades, me deixa quieto que eu só quero ficar aqui em casa tomando a minha cachacinha. Eu mereço, não?

Nisso, passatempo que o tempo passa, e a impressão é que a gente segue apenas existindo, existindo. Até que ponto o escapismo é necessidade, angústia ou uma benéfica higiene mental? Faço menor ideia. Só sei de uma coisa: no final, nenhum de nós vai escapar com vida.

Um segundinho. Vou ali encher meu copo.

 

“Perdoai, Senhor, tantas lamúrias. Mas cada um dá o que tem.”

Antônio Maria

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