A tese

MUNDIAL DE RUSIA 2018ARGENTINA VS CROACIAFOTO JUANO TESONE / ENVIADO ESPECIAL - FTP CLARIN DSC_1758.JPG Z JTesoneMessi
“O Messi angustiado mirando a grama russa diz mais sobre Deus do que aqueles goleadores que apontam os dedos para os céus sem ter feito nada de divino na vida inteira”

Xico Sá

Após incontáveis prodígios e maravilhas que Messi nos regalou em campo mundo afora, quem diria que um dia seria possível dizer que vê-lo hoje na Copa da Rússia é motivo de dó.
Se Sampaoli tivesse a formação que eu tenho – bacharelado em Terapêutica Etílica, especialização em Psicologia canina e doutorando em Sociologia de Botequim – jamais, repito, jamais colocaria na conta do Messi a responsabilidade de carregar uma nação de 40 milhões de portenhos nas costas. Sujeito sem sensibilidade esse Sampaoli, sô. Se parece desconhecer a natureza humana, que dirá a do genial e introvertido craque, um dos maiores de todos os tempos.
Fosse eu – e é pena dos argentinos que não o seja – Sampaoli jamais chegaria à boca de cena para falar à imprensa – e, portanto, aos quatro ventos, sete mares e trocentas redes sociais do mundo inteiro – sandices como essas:  ~ Moldei o time ao feitio de Messi  ~, ~Tudo está sendo feito para que Lio possa brilhar~, ~A estratégia da Albiceleste é Messi + 10~, etc.,etc.
Ao contrário. Fosse Sampaoli, puxaria Lio para um cantinho em separado do treino e, escandindo cada sílaba com lentidão calculada, diria: Filho, quero que você preste bastante atenção. Esqueça tudo o que me ouviu dizer. Vou te mandar a real: aqui você é só mais um. Pronto, falei. Na minha concepção de jogo, você é uma peça a mais no meu esquema. Para ser titular, todo mundo aqui tem obrigação. Tem que cumprir dupla função em campo. Ai de usted se não marcar o lateral-esquerdo. Descumpra e te tiro na hora do time. Porque, veja você, jogador nenhum é maior do que a equipe. Nunca, em tempo algum. Por gentileza, olhe pra mim quando eu estiver falando com você. Ninguém aqui é melhor do que ninguém, compreendeu? Compreendeu? Você tem uma escolha simples: ou você se encaixa ou é banco. Nome não ganha nem nunca ganhou jogo. Sou eu quem dou as ordens e nesse momento das nossas vidas, em toda a Argentina, nem o Papa manda mais do que eu. E, só pra constar, na próxima partida contra a Nigéria você vai pro banco. Não adianta me olhar assim porque tudo se trata de uma elementar questão de justiça. Todas as evidências ao longo de anos e anos comprovam: a Argentina não precisa de você. A Argentina nunca dependeu de você. Pra nada. Agora, se for o caso, se os astros estiverem alinhados e se eu estiver me sentindo magnânimo e bem-humorado, talvez – friso, talvez – eu possa entrar com você no segundo tempo. Sei lá, por volta dos 35 minutos.
Dá-se o jogo. Com cerca de dez minutos para o término, com um brilho estranho e feroz nos olhos, descansado de corpo e faminto de alma, Messi entra em campo, faz um gol e dá o passe pra outro virando uma partida que parecia perdida.
Pode duvidar, se quiser. Mas é minha tese de dissertação.

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