Nova Esparta

Resultado de imagem para postos gasolina fila(Gazeta do Povo)

São tempos bicudos no Brasil. Mas, em meio ao desabastecimento generalizado provocado pela greve dos caminhoneiros, talvez o que mais nos falte agora – além de um botijão de gás e uns cinco tonéis de gasolina, só por segurança – seja um pouquinho de otimismo para seguir adiante.

O problema é que nos acostumamos a olhar sempre para o tanque meio vazio. Revezes em demasia nos fazem esquecer de observar o lado positivo das coisas. Como qualquer marqueteiro de palestra sabe, em alguma língua estrangeira a palavra “crise” guarda o mesmo significado de “oportunidade”. E com a falta de combustíveis, a pancadaria nos postos, o sumiço dos víveres, o aumento de preço dos produtos, a interrupção parcial ou total do policiamento, transportes e demais serviços públicos, vejam, senhores, que oportunidade é essa que não se apresenta a nós brasileiros! É praticamente um cavalo encilhado desfilando, e – creia em mim – se de fato um passasse aqui na rua nesse instante, eu não hesitaria em montá-lo.

Só nessa figura de imagem já se vislumbram novos negócios na mente dos mais empreendedores. Mire: se os combustíveis porventura desaparecessem em definitivo, quão idílico e lucrativo não seria voltarmos ao tempo das diligências? Verdade que nos últimos anos cresceu muito a demanda por alfafa e ferraduras, mas uma nova era feudal abre a possibilidade para o surgimento de startups e oportunidades diversas no mercado nacional.

Com fáceis adaptações, estacionamentos se transformariam em cavalariças, com a vantagem de caber muito mais equinos do que automóveis. Aulas de equitação seriam incorporadas ao currículo escolar. A música sertaneja receberia novo impulso nesse ambiente familiar e talvez emplacasse outras vertentes: além do universitário, o sertanejo fundamental, o sertanejo Enem e o sertanejo PHD – este agradando a públicos mais intelectualizados. A moda country tupiniquim teria em Uberlândia ou Bragança Paulista uma nova Milão. Auto-escolas teriam que contratar novos instrutores. Novas profissões – como coletor de estrume e lava-jato de equino emergiriam, abrindo vagas no mercado de trabalho e fazendo girar a roda – de carroça, que seja – da economia.

E o retorno apoteótico do fogão a lenha? Quer coisa mais aconchegante, mais raiz, do que um fogãozinho a lenha? E quanto não economizaríamos com despesas ordinárias como academia de ginástica, na sempre excitante aventura de percorrer grandes distâncias até encontrar bosques com árvores as quais pudéssemos sentar o machado, rachar, carregar e estocar a lenha o máximo que conseguirmos? Todo mundo em forma rapidinho. Mas queimar calorias não é tudo – pense no upgrade culinário. Qualquer um sabe que a comida é excepcionalmente melhor quando passa horas apurando o sabor nas panelas. Esse movimento slow food compulsório, com benefícios indiretos ao paladar e à saúde das massas, é apenas uma das muitas vantagens do fogão a lenha, mal arranhamos a superfície de todo esse potencial.

Dito o quê, seríamos mais andarilhos – sobretudo a maioria dos brasileiros, que, segundo IBGE, FGV e que tais, não dispõe de recursos para bancar o custo mensal de um jegue. Talvez prestássemos mais atenção às nossas cidades, no tocante à necessidade de arborização para promenades sem sol rachando a moleira e para elevar a qualidade do ar atmosférico, então com menos poluentes em virtude do colapso dos automóveis. Sem contar que a ciência não tem dúvidas do bem que faz uma caminhada na saúde da pessoa. E o fato inegável de Belo Horizonte possuir mais morros do que qualquer outra capital no planeta só prova como nós somos privilegiados e como eram visionários nossos políticos fundadores. Quem aguenta a chatice da planura, toda aquela horizontalidade monótona das outras capitais pelo mundo? Você enxerga longe o que tem no fim de qualquer rua, de qualquer avenida. A vida sem morros é um eterno cotidiano sem surpresas, sem desafios e sem graça, como todo belorizontino sabe.

De mais a mais, ninguém está pensando lá na frente. Quando chegar a derradeira mudança que a humanidade irá um dia enfrentar – o fim da civilização baseada em combustíveis fósseis e o apocalipse decorrente – não sofreríamos quase nada porque estaríamos habituados à vida saudável e acadiana que os outros chamariam, erroneamente, de “primitiva” e de “adversidade.” Teríamos décadas de vantagens sobre nações mimadas por toda sorte de tecnologia, confortos e facilidades. Seríamos a Nova Esparta.

Otimismo, pessoal. Há um futuro radiante diante de nós.

Só carece de mais espora afiada e chicote no lombo pra gente chegar lá.

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