No rolê, mano

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Em 7 de setembro, tudo o que fiz de útil foi trocar o pneu do carro. Esvaziara, estacionado há dias. Como, eu não sei. Não houve flagrante de incidentes, pregos ou facadas. O estepe foi colocado e eu reconquistei a independência rodoviária.

No sábado, de manhãzinha, após receber documentos via Correio de que necessito para fechar um contrato de aluguel, parti para a borracharia. Comprei dois pneus meia-vida, os da frente sofriam de calvície precoce; não sei se fiz bom negócio, o fato é que me deixei morrer na lábia do borracheiro.

Perto dali, passei em um mercado para comprar pequenas provisões. De súbito percebi uma feirinha, a ocupar duas ruas próximas à Fradique Coutinho, na Vila Madalena. Fui. Percorri as tendas, e era mais do que hortifruti, legumes, folhas, que tais. Havia decerto algum contrabando, no sentido de artigos sem imposto, como badulaques diversos, ferramentas, objetos domésticos. Mas a maioria do comércio era de víveres, incluindo feijões, queijos, embutidos, carnes e peixes, sem falar nos comes e bebes.

Decidi entender um pouco o que é ser paulistano, e, após avaliar criteriosamente minhas opções, pedi uma garapa com limão numa barraca e um pastel de queijo e bacon noutra. A garapa estava deliciosa; o pastel, bom, mas temo que este tenha sido a causa de efeitos colaterais horas depois. Anos atrás, tive uma experiência traumática com a comida de feirantes em São Paulo. Enquanto não desenvolver toda uma bateria de anticorpos nativos capazes de falar coisas como “meu, esse bagulho que desceu da garganta agora é louco”, é evidente que preciso tomar mais cuidados.

Segui a pé da feirinha para a Teodório Sampaio, repleta de lojas de móveis. Fazia calor. Olhei alguma coisa, tendo em vista a casa que, se tudo der certo, alugaremos, e continuei para outra feira, a da Praça Benedito Calixto, point dos antiquários, dos descolados, dos coxas e dos alternativos – tudo junto e misturado.

Eu já a visitara. Passeei ali um pouco, comprei um vestido para a senhora, percorri os estandes de miscelâneas antigas com pouco interesse até que me deparei com uma banda que se apresentava ao vivo. Uma mulher no vocal, três caras nos instrumentos. Tipo banda indie.

Defronte, encontrei uma barraca de comidas do Pará que oferecia suco de graviola. Meu fraco: sucumbi em oito reais para matar o gosto de saudade e enfrentar o calor que fazia. Na mesma hora, a dona da banda emendou Have You Ever Seen The Rain, e eu, macho feito e crescido, bebendo meu suquinho de graviola, comecei a bambear, não sei por quê. Os olhos aguaram, sem nenhuma razão, e quis não ouvir, sair dali da multidão meio depressinha.

Refeito, andei os vários quarteirões até meu carro. Deixei as compras no quarto que alugo e fui para o Carrefour mais próximo. Não para mais compras, só para bater perna e conhecer preços e produtos que podem me servir mais tarde. Quando não se conhece ninguém em uma nova cidade, você precisa inventar coisas para fazer.

Do hipermercado fui ao Leroy Merlin. Do Meroy ao shopping Villas-Boas (este, uma perda de tempo, aliás). Eram 19 horas, e decidi ver como a rua da casa que estamos prestes a alugar parecia numa noite de sábado.

Um pouco escura, excessivamente tranquila, residencial. Ok. De lá, decidi me conceder um agrado: comer no chinês que eu já havia visto perto dali, em visitas anteriores.

Era um restaurante modesto, provavelmente já haveria visto dias melhores. No sábado à noite, eu era o único cliente.

Pedi meio Yakissoba – mas daria para quatro, tranquilamente. Foi demais para a fome pouca. Pedi para embalar o resto para viagem. Paguei a conta e aí chegou um biscoitinho da sorte.

Não comi o biscoito, mas o abri com curiosidade. Podia ser ali o destino me dando uma dica do que estamos fazendo, se estamos sendo sábios em trocar a vida relativamente acomodada de Belo Horizonte pelas incertezas de São Paulo.

A mensagem do biscoito: “Inundações são passageiras. Períodos extraordinários também”.

Fiquei um minuto a refletir. Bolas, o que quer dizer isso?

Só faltou estar escrito “É verdade esse bilete”.

Fiquei um tanto quanto frustrado, porque era ambíguo, em mais um sentido. Lembrei da forma meio anedótica com que o pensamento chinês é visto pela ótica ocidental, satirizada em muito no cinema e na cultural industry.

Reli o biscoito da sorte. “Inundações são passageiras. Períodos Extraordinários também”. No que meu deu vontade de acrescentar: “Exatamente. O normal é a normalidade”.

Com a barriga cheia e satisfeito por ter sido capaz de dar uma contribuição tão brilhante à milenar sabedoria chinesa, fui para a casa e dormi.

 

PS: Meg, no verso da mensagem vieram os números 01-17-20-21-43-59. Você costuma jogar na mega. Vai que.

 

 

O que que vou dizer lá em casa

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A vista

Existe uma piada interna entre minha mulher e eu. Baseada em fatos. Toda vez que circulo a pé por uma cidade, toda vez – nas oportunidades que tivemos em países europeus, sul-americanos, ou mesmo em Belo Horizonte, passeando no bairro com nossos cachorros – sou, às vezes mais, outras menos, chamado à consulta pelos transeuntes.

Onde é rua tal? Onde fica o supermercado X? Como faço para chegar à rua Y?

Acho graça, porque, mesmo no estrangeiro, e com Meg ao meu lado, invariavelmente vem perguntar a mim, não a ela. Tal é a constância que costumo dizer que isso só pode significar uma coisa: é o destino me mostrando que eu deveria trabalhar no guichê de informações da rodoviária, vocação cujo chamado insisto em prescindir.

Primeira noite em São Paulo. Aluguei um quarto na Vila Madalena, perto da agência onde começo uma nova etapa profissional. Vim de carro, cheguei às 17 horas. Decidi perambular para reconhecimento do terreno.

Estou parado à calçada, consultando o mapa no celular. Um carro com duas mulheres para à minha frente e elas me perguntam onde fica a Rua Girassol. “Desculpe, não sou daqui. Acabei de chegar”. Elas agradecem e permanecem no mesmo lugar, esperando o sinal abrir. Volto ao mapa do celular e vejo que a rua é a do próximo cruzamento. Corro ao carro e digo o que descobri. O sinal abre, e elas partem sem perceber que eu sorrio.

Faz calor surpreendente, acima de 33 graus, mas a noite é fresca, enseja talvez leve agasalho. O quarto onde estou fica no terceiro andar de uma casa na Rua Laboriosa, onde, dizem, reside o João Gordo. Há uma varanda privativa, com uma bela vista da região. Na noite da última quarta-feira, percebi uma iluminação difusa ao longe, que julguei ser o Pacaembu. Estava certo: o Santos jogava pela Libertadores.

As pessoas com quem tive contato, nas ruas, nos restaurantes, bares e serviços públicos, foram solícitas e amáveis, desfazendo a imagem de uma experiência anterior, de alguns anos. Pra gente ver que não é São Paulo: o mundo é que é cinza, tudo depende.

No momento, estamos envolvidos na burocracia de alugar um sobradinho de vila no Alto da Lapa, a 4 Km do trabalho. Não tão longe que possa ir de carro, nem tão perto que possa ir a pé. A se estudar.

Conheci parte da equipe que vou trabalhar na sexta-feira. Galerinha jovem, bem pensante. Tive a melhor impressão.

Tal qual um assunto que preciso confessar, para a vergonha de nós, mineiros.

Dia 28/8, quando cheguei, consegui percorrer os cerca de 590 Km BH-SP com apenas um tanque. Descendo a Av. Pompéia, parei num posto. Por completar, ganhei três pequenos pães-de-queijo.

Reclamei meu prêmio e eis o inesperado: num posto de combustíveis em São Paulo, foi o melhor pão-de-queijo que comi – como nunca comera em nossa terra.

Parecia haver algum toque de sabedoria na crosta, repleto de pontos tostados por algum sal distinto ou outro tipo de queijo a realçar uma personalidade diferente na superfície. Muito, muito saboroso, cravando em mim o desejo de, em mais de um sentido, voltar a abastecer lá.

Quando perguntam a um belorizontino onde é que se come o melhor pão-de-queijo da cidade, não há consenso. Nunca houve. Mas como é que vou explicar pra moçada de BH que em um posto de gasolina em SP tem o pão-de-queijo mais gostoso que já provei? O que que (pra ser honesto, tem que ter dois “que”, é assim que a gente fala) vou dizer lá em casa?

Não sei. Talvez em São Paulo tudo seja em outro nível, ainda mais pra gente que vem da roça. Como sou meio agnóstico, meio calabresa, rogar não custa: Deus abençoe.

Ani adversário

Diz a Certidão: Rubens Chácara Miguez, 29 de julho de 1975.

Só que não me sinto com 43 anos. Tem algo errado. Errado. Alguém na administração celestial ou demoníaca deveria verificar os arquivos. Alguém deve ter cometido um equívoco.

Eu não deveria me sentir com 43 anos.

Porque eu me sinto com oito anos incompletos. Como quando nos mudamos de Belo Horizonte para o Serro. Meus pais eram funcionários do BB e a primeira pergunta que fiz a eles era se lá tinha televisão, porque eu tinha medo de ter que ficar sem o amigo que eu tinha;

Eu me sinto como quem tinha dez anos num dos grandes aniversários que minha mãe fazia e reunia um monte de gente e eu ganhava montes e montes de presentes, tudo coisa bacana; quando aí, uma senhora bem pobrinha, mãe de um menor aprendiz do BB, me entregou um pacotinho com embrulho simplezinho e lá dentro havia um sabonete desses que a gente compra no supermercado; e eu agradeci mas continuei dentro do quarto e a festa então começou a não ter mais a mesma graça e tudo ficou meio doendo a partir dali porque esse sabonete tem sido uma espécie de presente que dura até hoje;

Eu me sinto como quem tinha quinze anos, em férias de verão no litoral do sul da Bahia, quando desistia de fingir que tava gostando das músicas de axé, do trio elétrico e de tudo o mais, e me afastava do agito procurando um lugar para me sentar sozinho pra ver o céu noturno e o mar até que um idiota se aproximava e perguntava se eu queria brincar com meu pauzinho e assustado eu voltava para multidão em busca de segurança;

Eu me sinto como quem tinha dezessete, sem a menor ideia do que fazer da vida e de uma profissão, sem orientação nenhuma de ninguém; quem devia dar opinião não dava, quem dava eu não tava a fim, e eu ia meio ao sabor dos ventos porque não sei fazer nada a não ser ler e escrever e ninguém vai me pagar para fazer isso, e o sentimento de seguir à deriva eu tenho de medo de me acompanhar até depois da morte;

Eu me sinto como quem tem vinte e poucos anos, sem lugar em casa, sem lugar no mundo, inadequado em relação ao que faço, à cidade que moro e com o trabalho que levo, sem muito jeito para me relacionar com as pessoas, sem conseguir revelar para as mocinhas por quem eu me apaixonava que, olha, eu entendo sua dores e dúvidas, não sou esse retardado que você julga conhecer;

Eu me sinto como quem tinha trinta anos, já com alguma leitura na bagagem e ciente de que jamais serei o escritor com o talento dos gênios que eu admirava;

Eu me sinto como se tivesse acabado de conhecer a minha mulher e não como se estivéssemos juntos há dez anos, porque, agora como então, eu não posso dizer a ela para onde vamos porque não faço menor ideia;

Eu me sinto como quem acaba de fazer quarenta, com cada vez menos ilusões e mais fios brancos, mas que porém contudo entretanto continuo meio esperando que o Infinito – que, de um jeito ou de outro, pareceu me proteger até agora – me dê uma luz e me faça enxergar e colocar em prática meu propósito nessa vida curta e sem sentido.

Em meus delírios mais íntimos, nenhuma máscara minha funciona: todas as pessoas que me olham são capazes de  enxergar como realmente sou. Não um senhor de 43 anos, não um profissional realizado, não um homem que sabe o que está fazendo. E mais algo do gênero: “Ei! Ali não é aquele menino que acha que é adulto mas não engana a ninguém?”

O próprio. Lá vai ele fazer quarenta e três.

 

 

Escapismos

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Até que ponto – Deus, mal começo e já se figura inevitável a digressão. Com algum tempo no curso de Comunicação Social, percebi que o uso frequente que os colegas faziam da expressão “Até que ponto” deixava as perguntas mais inteligentes. Ao menos, é o que me parecia, pelos meneios e sorrisos de aprovação dos professores de humanas sempre que alguém sacava um “Até que ponto aquilo é influenciado por isto ou isto é apenas o significante que representa semanticamente a terceiridade intrínseca de aquilo?”, num daqueles debates longuíssimos cujo único destino era sempre o lugar nenhum, embora ao final todos se sentissem muito sabidos e bem pensantes. Tomei birra de Até Que Ponto (AQP), e no íntimo jurei jamais empregá-lo para esse fim, mas o tempo passa e eis-me aqui descumprindo promessas de um sujeito que, embora mais jovem, se parece muito comigo, mas não sou eu.

Aliás, engraçado essa coisa de promessa, de certezas peremptórias. Há pouco mesmo, estive em Nova York. Foi minha primeira vez em solo americano, e eu tinha prometido que, uma vez lá, jamais me dignaria a comer em um McDonalds, por razões de nunca achei graça. De mais a mais, há tanta comida boa e diferente que uma viagem ao exterior se nos apresenta. Mas, olha lá: na hora do aperto, extenuados após 24 horas de viagem, qual o lugar mais rápido, em conta e perto do nosso apartamento no Harlem? Língua paga com um hamburgão do McDonalds – a primeiríssima experiência gastronômica nos EUA. Foi simbólico mas não foi gostoso, nem saudável nem saudoso.

Mas eu dizia. Quer dizer, dizia nada, na verdade queria era perguntar algo sobre como utilizamos nosso tempo, digamos, livre, e as implicações psicológicas decorrentes. Até que ponto o que pode ser considerado como escapismo deixa de ser lazer para se transformar em sentimento de culpa? Indago porque o escapismo me parece um fenômeno muito comum, pelo menos aqui em casa, e, por observação e experiência, deve ser que nem na casa de muitas outras gentes.

Alguém pontuaria talvez que a coisa passa pela noção de merecimento. Você não se sentiria culpado se se julgasse merecedor. Você trabalhou duro, fez o dever de casa, cumpriu suas obrigações consigo e para com os seus e, ao fim do dia, ora essa, você merece uma distração. Ou várias: talvez nunca tenha havido tantas, tão facilmente disponíveis, como hoje.

A internet e suas manifestações em múltiplas telas é provavelmente o que você pensaria em primeiro lugar, mas obviamente a coisa não para aqui. Futebol. Música. Animais de estimação. Games. Aplicativos. Seriados. Jardinagem. Academia. Baralho. Palavras Cruzadas. Sudoku. Tricô. Missa. Etc. Etc.

Por exemplo. Sempre me senti menos à vontade entre pessoas do que entre leituras. AQP esse hábito é um hobby genuíno ou apenas um lugar seguro para a falta de traquejo social? A tal da realidade é tão dura assim mesmo pra gente enxergar o escapismo como uma necessidade legítima?

E, por falar em legitimidade, o que dizer dos vícios, das drogas lícitas e ilícitas? Numa perspectiva histórica, o que pode e o que é aceito e o que é condenável são meras convenções sociais localizadas no tempo e no espaço. O veredicto – pena ou absolvição – pode ser externo, mas e a desarrumação íntima do sujeito? Quem sabe que vazios ou demônios devoram por dentro os ansiosos, os depressivos, os deslocados? Quem há de julgar? Prefiro não.

O que posso dizer, por experiência própria, é que a percepção do escapismo como culpa advém da inclinação pessoal de entendê-lo como meio de protelação. Protelação de quê, exatamente, não sei. Talvez de que eu deveria ser mais bem-sucedido. De que não sou quem um dia eu pensei que poderia ser. De que eu deveria ser feliz trabalhando. De que a velhice saudável para mim e para minha mulher estará em risco se eu não fizer nada nessa quadra da vida. Ou de que eu deveria ser menos egoísta e fazer alguma coisa a mais pelas pessoas que me conhecem e gostam de mim, e mais ainda pelos semelhantes que não tiveram as oportunidades que eu tive para estar aqui digressando de barriga cheia.

Mas, não. Ao invés de reformar a casa, que está precisando, vamos economizar para viajar uma vez mais. Ao invés de encarar o país e os terríveis presságios que anuncia, vamos fugir desse lugar, baby – já estamos longe no estrangeiro em meus devaneios e fantasias. Ao invés de ter uma palavra de ternura com minha mãe, meu pai, minhas irmãs, deixa eu só terminar de assistir a mais esse episódio. Ao invés de sair e cultivar amizades, me deixa quieto que eu só quero ficar aqui em casa tomando a minha cachacinha. Eu mereço, não?

Nisso, passatempo que o tempo passa, e a impressão é que a gente segue apenas existindo, existindo. Até que ponto o escapismo é necessidade, angústia ou uma benéfica higiene mental? Faço menor ideia. Só sei de uma coisa: no final, nenhum de nós vai escapar com vida.

Um segundinho. Vou ali encher meu copo.

 

“Perdoai, Senhor, tantas lamúrias. Mas cada um dá o que tem.”

Antônio Maria

A tese

MUNDIAL DE RUSIA 2018ARGENTINA VS CROACIAFOTO JUANO TESONE / ENVIADO ESPECIAL - FTP CLARIN DSC_1758.JPG Z JTesoneMessi
“O Messi angustiado mirando a grama russa diz mais sobre Deus do que aqueles goleadores que apontam os dedos para os céus sem ter feito nada de divino na vida inteira”

Xico Sá

Após incontáveis prodígios e maravilhas que Messi nos regalou em campo mundo afora, quem diria que um dia seria possível dizer que vê-lo hoje na Copa da Rússia é motivo de dó.
Se Sampaoli tivesse a formação que eu tenho – bacharelado em Terapêutica Etílica, especialização em Psicologia canina e doutorando em Sociologia de Botequim – jamais, repito, jamais colocaria na conta do Messi a responsabilidade de carregar uma nação de 40 milhões de portenhos nas costas. Sujeito sem sensibilidade esse Sampaoli, sô. Se parece desconhecer a natureza humana, que dirá a do genial e introvertido craque, um dos maiores de todos os tempos.
Fosse eu – e é pena dos argentinos que não o seja – Sampaoli jamais chegaria à boca de cena para falar à imprensa – e, portanto, aos quatro ventos, sete mares e trocentas redes sociais do mundo inteiro – sandices como essas:  ~ Moldei o time ao feitio de Messi  ~, ~Tudo está sendo feito para que Lio possa brilhar~, ~A estratégia da Albiceleste é Messi + 10~, etc.,etc.
Ao contrário. Fosse Sampaoli, puxaria Lio para um cantinho em separado do treino e, escandindo cada sílaba com lentidão calculada, diria: Filho, quero que você preste bastante atenção. Esqueça tudo o que me ouviu dizer. Vou te mandar a real: aqui você é só mais um. Pronto, falei. Na minha concepção de jogo, você é uma peça a mais no meu esquema. Para ser titular, todo mundo aqui tem obrigação. Tem que cumprir dupla função em campo. Ai de usted se não marcar o lateral-esquerdo. Descumpra e te tiro na hora do time. Porque, veja você, jogador nenhum é maior do que a equipe. Nunca, em tempo algum. Por gentileza, olhe pra mim quando eu estiver falando com você. Ninguém aqui é melhor do que ninguém, compreendeu? Compreendeu? Você tem uma escolha simples: ou você se encaixa ou é banco. Nome não ganha nem nunca ganhou jogo. Sou eu quem dou as ordens e nesse momento das nossas vidas, em toda a Argentina, nem o Papa manda mais do que eu. E, só pra constar, na próxima partida contra a Nigéria você vai pro banco. Não adianta me olhar assim porque tudo se trata de uma elementar questão de justiça. Todas as evidências ao longo de anos e anos comprovam: a Argentina não precisa de você. A Argentina nunca dependeu de você. Pra nada. Agora, se for o caso, se os astros estiverem alinhados e se eu estiver me sentindo magnânimo e bem-humorado, talvez – friso, talvez – eu possa entrar com você no segundo tempo. Sei lá, por volta dos 35 minutos.
Dá-se o jogo. Com cerca de dez minutos para o término, com um brilho estranho e feroz nos olhos, descansado de corpo e faminto de alma, Messi entra em campo, faz um gol e dá o passe pra outro virando uma partida que parecia perdida.
Pode duvidar, se quiser. Mas é minha tese de dissertação.

We Have No Idea

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Humanas são minha onda, minha praia, minhas miçangas – tudo o mais é difícil e complicado. Embora casado com uma bióloga, tenho uma triste história de desencontros com a Biologia. Química, outra relação pouco saudável – de lá, não digiro nada que seja orgânico. E, ainda que admirasse certos aspectos da Matemática, como Geometria e certa Álgebra simples, curiosamente Física sempre foi um de meus interesses.

Volta e meia visito publicações a respeito. Embora minha compreensão da matéria seja, com honestidade, limitadíssima, exatamente por isso não posso deixar de recomendar um livro adorável: We Have No Idea.

Criado em parceria pelo físico Daniel Whiteson e o quadrinista Jorge Cham, o livro é um delicioso apanhado sobre as grandes questões] que ora afligem os físicos, numa linguagem bem-humorada e acessível como jamais encontrei no gênero – right in your face, Neil DeGrasse Tyson.

Repleto de cartuns, o livro percorre de forma uberdidática os atuais dilemas, mistérios e becos-sem-saída que a Física contemporânea se depara. Quanto e o quê sabemos sobre o Universo até o momento? O que é matéria escura? E energia escura? O que é o tempo? Quão longe estamos de uma Teoria de Tudo? Como arranjar o casamento entre a Teoria da Relatividade Capuleto e a Mecânica Quântica Montéquio?

Mesmo face a face com temas que poderiam soar complexos, de questões que pairam no limiar da Física, posso garantir a você duas coisas. Uma: a certeza de uma leitura fácil e prazerosa. Mesmo sem traduções em português, dá para encarar, creia-me: meu inglês é nível serjumoro.

Dois: o que é bonito, o que é adjacente aos esclarecimentos científicos de We Have No Idea é o voto de humildade, o assombro diante da imensidão da nossa ignorância, tão vasta como o Cosmos.

Estima-se que tudo o que sabemos, todo o progresso alcançado pela humanidade até hoje – o conhecimento acumulado da astronomia, biologia, química, física, etc., fora a tecnologia do macarrão instantâneo – não passam de apenas 5% do universo cognoscível.

O resto? A gente não faz ideia.

Imagem relacionadaA grande mágica do livro não é impingir a necessária modéstia pelo reconhecimento da nossa própria ignorância. Ao contrário: é reaver na gente a beleza e o sentimento do numinoso – da maravilha, do assombro e, por que não, da diversão que a descoberta e a busca pela Verdade proporcionam.

Tudo o que faz da Física uma matéria apaixonante. E de We Have No Idea uma apaixonada declaração de amor.

Para saber mais: http://phdcomics.com/noidea/

 

 

 

 

A Verdade

Imagem relacionadaComeça a Copa da Rússia e certos instintos, soterrados por preocupações ou proscritos pela vida adulta, ressurgem espantosamente –  como que por milagre, rebrotam para mais uma primavera.

A que se deve o fenômeno?

A gente pode até pensar que é a paixão pelo futebol, o esporte mais popular do planeta.

Pra mim, nada mais longe da verdade.

A verdade verdadeira é essa: acho que não gostamos de futebol.

Me arrisco a dizer: sequer de Copa do Mundo gostamos.

Gostamos é de histórias.

O que faz de Nelson Rodrigues o maior cronista esportivo de todos os tempos e línguas não foi o talento para a melodia da frase – a maestria no ritmo concatenado das orações; tampouco a inventividade rara para as metáforas inesperadas, deliciosas.

O que distingue Nelson de todos os demais é a sensibilidade extremada, o faro fino para enxergar o óbvio debaixo do meu nariz. Que é este: não há, não existe, nem nunca houve o futebol. Tudo o que existe são histórias. Somos loucos por histórias.

O futebol é a natureza humana –  em todas as suas vilezas, nobrezas e peculiaridades. Tudo o que há de feio, o que há de belo, o que há de ruim, o que há de bom.

Todo jogo é um teatro. Encenado ao vivo. E nenhuma partida é irrelevante – por mais horrenda, por mais pelada – homérica! –, que seja.

Nosso dramaturgo compreendeu a verdadeira natureza do futebol em todos os seus atos e personagens necessários. A volta por cima do desprezado. A injustiça no triunfo de vilões. A fortuidade da sorte. Ascensão e queda dos impérios. As batalhas sangrentas e seus comandantes. Os ícones. Os símbolos. A morte de velhos reis por seus predecessores. A vitória individual, a derrota coletiva. Grandes conquistas, vinganças comezinhas. A inveja, o despeito. Respeito e irmandade. Covardia. Coragem. Tragédia e comédia. Húbris e Glória.

É preciso que haja o juiz ladrão, a falha grotesca, o gol redentor. O que faz rir a uns, a outros fará chorar multidões.

Se um simples casados x solteiros bem observado já encerra em si  todo um universo de pequenos dramas, que dirá a Copa do Mundo – a grande história, a narrativa de nações de todos os continentes.

Alguém então contestará: certo; mas, até aí, vale para qualquer esporte.

Verdade.

Mas o escritor franco-argelino Albert Camus disse uma vez que, tudo o que aprendeu sobre moral e as obrigações do ser humano, ele devia ao futebol.

Gosto de pensar que, como o Nelson, o autor de O Estrangeiro entendeu.

Não gostamos de futebol. Nem de Copa do Mundo. Gostamos de histórias.

E de bola na casinha.